Frei Augusto caminhou até a janela. As grades de ferro distorciam sua visão do jardim do mosteiro, agora inundado por margaridas que contrastavam com a grama verde. O desejo era de empurrar a porta de madeira maciça que separava o interior da sala de entrada do mosteiro de sua área externa. Hora de iniciar as orações da manhã, antes do café com os companheiros de cela.
Frei Augusto, quando ingressou para a ordem dos frades menores capuchinhos, um dos ramos da família franciscana, tinha o objetivo de servir a Deus e ao próximo. Sua missão implicava em abrir mão de uma vida terrena repleta de vícios e desejos carnais. Os momentos de oração na capela do mosteiro o tiravam desses pensamentos mundanos, por alguns instantes.
Hora do café com os colegas de oração. Mesa comprida de madeira, frades com suas vestes marrons com capuz e um cordão cru amarrado na cintura dividiam os pães de centeio recém saídos do forno, um verdadeiro espetáculo de comunhão.

Os dias no mosteiro transcorriam iguais, e Frei Augusto acompanhava os rituais de sua ordem sem penetrar em suas reais intenções. Sentia falta da casa no interior de Sergipe, dos pés de pitanga, umbu e graviola que enfeitavam as terras da família; dos laços de fita no cabelo de Marieta, das manhãs nos montes de feno, em que os dois rolavam sem noção das horas; dos gritos da mãe Eulália, chamando pela filha.
Os encontros com a menina da fita no cabelo ficaram cada vez mais constantes até que os gritos da mãe se calaram. Augusto fora chamado na casa de Marieta, onde recebeu a notícia de que seria pai. A menina foi levada à comadre Ritinha que deu conta de acabar com o drama da família e Augusto foi encaminhado ao convento dos capuchinhos, na capital.

O sino tocou no pátio do mosteiro e tirou Frei Augusto de suas lembranças. O que acontecera com a menina de laço de fita na cabeça? E com seus desejos juvenis envolvidos por uma túnica surrada, lavada uma vez por semana pelos freis incumbidos dessa tarefa. Hora de se reunir no pátio para uma caminhada, um dia seguido do outro, para mais tarde, após o almoço, responder às cartas que chegavam pedindo ajuda em diferentes situações. Da biblioteca, onde os frades faziam suas escritas também havia uma janela com grades de ferro, que mais uma vez traziam ao frei a certeza de que lá era seu lugar, não por escolha própria e sim por destino, como sempre lhe disseram e ele acolheu. Durante a missa da tarde, antes de ser servido o jantar, frei Augusto reverenciou a imagem de São Francisco no altar e lágrimas desceram pela face em comemoração a suas escolhas.

Por Sofia Mathias
01/07/2022